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quinta-feira, 6 de maio de 2010

25 de abril sempre!*


Uma bela página da História recente de Portugal. Uma Revolução que teve início na madrugada fria do 25 de Abril. Uma Revolução que nasceu sob o signo das flores, cravos vermelhos, embalada pelas canções de Zeca Afonso, Depois do Adeus e Grândola, Vila Morena, música/senha, a anunciar os novos tempos em liberdade. Como bem definiu Sophia de Mello Breyner, poeta portuguesa, “liberdade, a poesia estava na rua”. Claro que há também os antecedentes, a guerra colonial, o horror da guerra em África. A Revolução dos Cravos se dá em 1974. No Brasil, vivíamos o fim da era Médici, uma fase conturbada de nossa história, conhecida como “os anos de chumbo” e o início da era Geisel. Do lado de lá do Atlântico, depois de 48 anos de fascismo português, do Salazarismo, os militares, o Movimento das Forças Armadas (MFA), liderado pela jovem oficialidade, “Os capitães de Abril”, e o povo derrubavam uma ditadura de direita. Isto para nós, latino americanos, era algo incrível. Porque aqui, os militares depunham governos legítimos, presidentes eleitos. Há um texto importantíssimo sobre esse momento, publicado na “Revista Brasil Socialista”, de Éder Sader, intitulado “Lições de Portugal”. A música popular brasileira acompanhou todo o processo revolucionário português: Chico Buarque, nas duas versões de “Tanto Mar”; Nara Leão, gravando “Grândola”; Abílio Manuel, “O Cravo e o Fado de Abril”. No cinema, Glauber Rocha registrando os fatos em documentários. Sebastião Salgado, com suas fotos divulgando para o mundo a boa nova. A revolução dos Cravos mantinha acesa a chama da esperança do lado de cá do Atlântico.

Nessa data, todos os anos, nos pilares da ponte em Lisboa, que leva o mesmo nome, escreve-se 25 de Abril SEMPRE. Foi a lição que Zeca Afonso nos deixou.

Aqui, relembramos a data através de músicas, portuguesas, brasileiras, africanas. É importante que se registre a importância de África, dos líderes do MPLA, FRELIMO, dentre outros, para o 25 de Abril. Moacyr Werneck de Castro, nos anos 70, mantinha uma coluna no jornal “Última Hora” sobre os rumos da guerra em África. Vários depoimentos foram registrados, como o de Mário Pinto de Andrade, que dizia: “a nossa luta pela independência levará à derrubada do Salazarismo em Portugal”. O golpe militar no Brasil dificultou o acesso à informação, tentou destruir essas pontes de solidariedade. Hoje, a projeção de filmes como “Capitães de Abril”, de Maria Medeiros, é um modo de nos reencontrarmos, avaliarmos os nossos impasses, as nossas contradições. Havia um provérbio chinês muito citado pelo regime: “Quem recorda o passado perde um olho”. Depois da Revolução dos Cravos, ele foi recuperado na sua totalidade: “Aquele que o esquece perde os dois.” Uma palavra sintetiza o fato de não nos esquecermos dos cravos de abril: resistência. A aposta de que somos capazes de sonhar, lutar por um mundo justo. Por vezes, as cores e os ideais se confundem, podemos não saber exatamente o que desejamos, mas temos a certeza, a convicção do que não queremos reviver. O 25 de Abril funciona como um toque e um alerta. Atua no nível da consciência como se fora uma espécie de porto onde, vez por outra, ancoramos as nossas esperanças.

“Em cada esquina um amigo, em cada rosto igualdade, Grândola Vila Morena, terra da fraternidade”. Aninhada em nossa memória, a lição de abril permanece.



*Cinda Gonda, professora da Faculdade de Letras da UFRJ, que escreveu o texto como contribuição para o blog do COLETIVO MARXISTA

sexta-feira, 9 de abril de 2010

As árvores deitadas sobre as ruas da cidade*

Segunda, a noite se arrastava, amedrontando-me. Espremido sobre a elevação do posto de gasolina, em frente ao monstrengo da petrobras, ouvia frenético, os relatos pessoais da enchente, pelo rádio. Ainda não se podia prever o destino da madrugada nem a manhã avassaladora que iríamos viver na terça-feira. Com o tempo, tomado pela inesperada razão descabelada, liguei o motor, tanque cheio, meio rezando meio raciocinando, pisei fundo e subi o morro. Como transformar 20 min em 4 horas, uma transformação hiperbólica sem dúvida, desconcertante.

Depois do Chá, sentei-me à varanda coberta para apreciar o espetáculo do temporal. Sim, era um temporal potente, mas, às 10, 11 ½ noite, ainda não sabíamos de suas consequências. Deitado, ao invés do sono costumeiro, o ouvido atento, meus olhos fechados, antes de induzir-me ao onírico, aguçavam minha percepção sonora e preocupadamente, me apontavam para a continuidade e a permanência do temporal, sua grandeza, suas verdades de água. Finalmente adormecido, entrecortei-me de aflições diversas e sem saber se em sonho ou semi-desperto ouvia e transformava em mim e fora de mim o imenso mar que se abatia em um corpo deitado, tenso e desassossegado.

A manhã enfim abriu-me os olhos e encheu-me com seus aromas sutis e seus gostos despertadores. Sim, tínhamos que seguir o planejado, à risca a agenda de mais uma terça feira. A chuva não diminuíra. Pela janela, um silêncio de cidade apagada entre o burburinho das águas incessantes. Não tínhamos luz. A energia desaproveitada, por certo, nos abandonara. Se a segunda terminara em enchentes, não devíamos estar em uma situação melhor, nesta manhã silenciosamente misteriosa e cinza. Não se ouviam carros passando nem vozes conversando pelas ladeiras de Santa. Olhei, mais uma vez, o relógio em sua máquina indiferente, 7, girei a chave da porta e depois as trancas do portão de ferro. 7, à luz de um dia incomum de temporal, mas, estranhamente vazia a rua em cachoeira trazia-me seus pedaços de vida destroçados.

A poucos metros de mim, uma imensa árvore dormia atravessada sobre a rua e suas calçadas. Envolta em fios e nervosos passarinhos, determinava parte do silêncio de almas que escutavam, sua outra metade, viria de um pequeno deslizamento que impedia que carros subissem a mesma rua onde a árvore dormia. Estava preso, enfim, em minha própria casa, como previra, por certo, algum filósofo moderno, mas de outra maneira, na qual mesmo a filosofia se cala, as físicas se amedrontam e as matemáticas indiferentes, há muito já não fazem sentido. Quando árvores se deitam à chuva, sobre as ruas e estas dando lugar à teimosia das terras submergem ao barro denso e úmido, não há razões, ou há, para inventarmos um mundo que se nos aplaque o medo de existir somente. O mundo é este. O mundo é a água, como queria, talvez, um outro filósofo, antigo, água sobre a matéria estremecida. As primeiras notícias do tamanho do que se abatia sobre as cidades onde vivia e passeava meus pensamentos, vieram-me por meio do pequenino cel, que desafiando céus mais azuladinhos, gritava por seu rádio, até então, totalmente anacrônico o que a manhã descortinava na cidade em pânico.

As catástrofes se sucediam e com elas os políticos e seus sorrisos pateticamente prateados. Quanto maior a dor do mundo, maior o tempo de exposição à mídia, destes abutres urbanos.

Primeiro o prefeito, que chega reluzente e não mais para em reluzir-se, e repetindo sempre um igual desengonçado, vai entre dentes construindo suas verdades imobiliárias. A natureza apenas reagira aos pobres e aos trabalhadores que estupidamente ousavam contrariar suas forças imbatíveis. Vamos removê-los! Estas não são terras para pobres, para trabalhadores. Vejam, morrem como formigas, inumanos que são, não merecem a vista nobre que desfrutam. Não sabem construir nos belos montes. Removê-los, como já havíamos dito, e outros antes de nós, para onde possam trabalhar silenciosa e invisivelmente.

Depois, o Governador se junta aos gritos. Removê-los! Quæ Sera Tamen. Abraçam-se, se unem, arregaçam mangas e pousam paras as fotografias. Removê-los, acima e além de suas vontades, pois, pobres e operários que são, não tendo a fibra necessária para virar o jogo social e brilharem como jogador ou presidente, precisam de nossa ajuda imperiosa. Removê-los, quase como exterminá-los, e vê-los afogando-se, lentamente, pelos baixadões submissos das vontades.

Primeiro o Prefeito, depois o Governador, o dia se estende pela chuva ininterrupta, os holofotes se acendem, o Presidente afoito, enfim mostra a sua cara. Saiam de suas casas, grita eufórico. Removê-los! Ao lado da natureza e contra os seus efeitos, seus métodos, compreendendo enfim a ignorância rude que a chuva hoje desmorona, mas aquiescendo à sua força e verdade, há que removê-los. Há muito tempo, comenta com seus dois admiradores, não temos tanto tempo, assim tão globalmente, e por tão nobres virtudes: salvar enfim o povo, ressuscitando-nos pela remoção dos pecados de existir assim desta maneira impertinente.

A Natureza com suas bombas atômicas, noutras plagas, com seus aviões invisíveis e suas verdades científicas, nos ensinando a remover aqui, como lá, as diferenças, seus pensamentos sutis e sua feiúra negra, religiosa e feminina. A chuva continuou por toda terça-feira, invadiu, sem pena, a quarta, a quinta e misturando corpos à lama dos acontecimentos, produziu decretos de remoção sumária, de remoção imediata, à força, dos que, por ventura ousarem sobreviver aos acontecimentos.

As árvores deitadas sobre a minha rua, seus fios entrelaçados, seus passarinhos perdidos, não têm mesmo nada a ver com essas resoluções político-autoritária-imobiliárias. Os holofotes sim, iluminando sempre onde os abutres lucram e as desgraças grassam.


*Ricardo Kubrusly, professor, poeta, matemático e colaborador do COLETIVO MARXISTA.