terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Mensagem de final de ano


¿Quién hizo historia de las lágrimas?

¿Quién recuerda los pechos rotos de los amantes muertos?
¿Quién contabilizó los acelerados latidos en los vientres de las mujeres embarazadas?
¿Quién midió el llanto derramado y pudo describir el miedo en el rostro de los niños
¿Quién describe la mirada de estupor de los cuerpos despedazados o la inocencia rota en los niños que vieron morir a su familia y sus pueblos avasallados?
Con cuanto desparpajo se recuerda o se olvida la guerra y la vida, la vida al instante sólo fue un relámpago extinguido".....


Versos finais do poema "Cuando una guerra se anuncia "- da poeta venezuelana Yuri Weky


Chegamos ao final de 2010, ano repleto de lutas, conquistas, e marcado pelo avanço da violência e repressão contra a classe trabalhadora. No Rio de Janeiro,palco recente de momentos da barbárie midiatizada, a lógica da opressão aos trabalhadores para a construção de cidades rentáveis e vendáveis mostra de forma escancarada o projeto que se aplica em todo o país. Nesse cenário, os militantes do Coletivo Marxista reafirmam sua luta em defesa dos ideais proletários e a certeza de que a construção de uma sociedade comunista é a exigência contra a barbárie.




quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Pequenas reflexões alemãs entre os subúrbios cariocas

A Cidade Maravilhosa presenciou cenas lastimáveis nas últimas semanas, sendo os confrontos entre traficantes e policiais noticiados em diversas partes do mundo. A cidade, que em breve será sede de mega-eventos esportivos, como a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, sofre diariamente com as mazelas sociais desencadeadas pela lógica cruel, desigual, desumada e opressora do sistema capitalista. Diante desse cenário, o COLETIVO MARXISTA reconhece a importância de unirmos a classe trabalhadora para nos organizarmos de maneira independente e contrária aos dominantes políticos e econômicos a fim de construirmos uma sociedade sem classes, que garanta os mesmos direitos e os mesmos deveres para o conjunto dos homens e mulheres que dela fazem parte. Orgulhamo-nos em publicar mais uma das belas reflexões de nosso colaborador Ricardo Kubrusly, que destinou o texto "Pequenas reflexões alemãs entre os subúrbios cariocas" à nossa militante Vera Salim, uma das fundadoras do COLETIVO MARXISTA.


Para Vera Salim desencantada


Enquanto as enchentes com seus mortos e seus holofotes esperam as águas de março para formarem seus palanques, os morros tremem aos sons das bombas da liberdade. Estranhos artefatos que matam ao libertar e só libertam enfim pelo espírito desajeitadamente ressuscitado, na troca colorida do vermelho ao azul em seus comandos. Os tanques, finalmente, iluminam nossos governantes. E a cidade, entorpecida, agradece. São sombras e múmias que agradecem aos uniformes gordos enquanto as drogas descem os morros e penetram pela TV nas veias secas de um destino amedrontado. Troca fausta a de esperar felicidade nas praças cobertas de armas uniformizadas. Triste ver tomada de soldados e milicianos em nossas ruas. Triste amedrontado o preço dessa paz por mídia feita e por mídia respirada. Que globo é esse que se nos impõe arrombamentos e silêncios, arrombamentos e aplausos, arrombamentos invisíveis. Que comando paralelo e vil, esse, que em nossas casas, todas as casas, todas as horas, bombardeia suas mentiras impunemente. Ora, ora, ora, mandem os tanques ao jardim botânico, pois é lá que bazucas encapuzadas de elétrons se nos aniquilam. Para onde ia mesmo a droga apreendida? Ah, e as armas, por onde vinham?



AP Photo - Andre Penner


Não, não queremos a cidade com rifles apontados por todos os carros e por todas as janelas desse comando azul corrupto, ou verde de tristes lembranças. Não somos e não podemos nos enganar tanto em parecermos uma cidade dividida entre bandidos e polícias e orquestrada pelo pior dos pensamentos jornalísticos. Merecemos mais e melhores reflexões. Precisamos das pessoas desaparecidas na cidade amedrontada, das crianças, dos loucos, dos professores, dos poetas, não somos o filme do momento nem queremos sê-lo.


AP Photo - Silvia Izquierdo


Espanta ver, aos galopes, irem-se as reflexões enquanto os rifles aplaudidos se aproximam. Lá vão eles, nossos Rambos, pateticamente verdadeiros. Nossas universidades, já acostumadas ao medíocre complacente de seus tão pequenos vôos, não se inquietam para além das possíveis interrupções das linhas que se cruzam, vermelha e amarela. Não tomam a si o que de fato é seu, preferindo aplaudir ufano-envergonhada a presença militar em nossas ruas a se engajar em uma análise sócio política do desastre social em que vivemos. A cidade torna-se, apenas, a cidade pela TV. Não somos o filme do momento nem queremos sê-lo.


AP Photo - Silvia Izquierdo


Dezembro avança e temos sempre muito mais o que fazer do que pensar o mundo e seus dramas. As lojas estão cheias e as fardas, como se numa Alemanha disfarçada, garantem o ir e vir dos acontecimentos. E se é certo eu aqui e agora, não temos o horror nazista de outros tempos e lugares, os militares, de todas as cores, há muito já nos ensinaram a não querê-los nunca por nossas ruas novamente.


Dezembro avança e as dezembradas não nos poupam as horas. Mais um natal faminto se aproxima, drogas e armas por todos os lados. A aflição de mais um ano sem sentido se renova e ainda predomina entre as palavras e os silêncios. De novo, apenas essa cidade uniformizada do azul e do verde de tristes lembranças e seus fuzis apontados rumo às nossas cabeças. Há que gritar um poeta adormecido: Que bandeira é essa que impudente encobre tanta covardia?!



Ricardo Kubrusly

Poeta, Professor, Matemático da UFRJ

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A bomba atônita

Com muita satisfação, o COLETIVO MARXISTA publica o texto "A bomba atônita", de autoria de nosso companheiro de tantas batalhas, Professor Ricardo Kubrusly. Reflexões importantes durante o período das eleições parlamentares, em que nossa organização, entendendo que nossos sonhos não cabem nas urnas, defendeu o voto nulo e apontou para a necessidade de construirmos um Partido Revolucionário em nosso país.




Acordo cedo e passeio a cidade rumo ao lugar onde morei por tantos anos e há tantos, só retorno nos dias de eleição. Voto em um colégio perto do Cemitério. O contraste que se estabelecia entre a cidade dos vivos, com suas palavras, seus gestos, seus pensamentos e a necrópole silenciosamente ensolarada e suas áleas de alamandras, sempre foi o que mais me chamava atenção nos dias de eleição. O contraste que todos os dias percebemos se exaltava com as discussões intermináveis, as bandeiras de todas as verdades e as verdades de todas as bandeiras. Discordávamos sempre, mas sempre vivíamos o calor das conversas sobre o futuro e nossos sonhos de futuro. Não era a chamada festa democrática que nos encantava, mas estarmos prontos e renovados para lutar por nossos ideais e convicções. Buscávamos um mundo melhor. O conceito de melhor variava de pessoa para pessoa, de grupo para grupo, de ideais para ideais, mas éramos convictos da importância da nossa participação como pessoas individuais e coletivas nos caminhos que inevitavelmente se nos atravessavam. A cidade era a cidade das opiniões. Não havia bebidas nos bares; nossos ânimos eram controlados pelas burocracias e pela polícia espalhada pelas ruas das cidades. Éramos a sociedade em movimento, pulsando convicções de todo destino e desejo, de toda vontade e futuro, movimentando-se.

Acordo cedo, caminho a cidade abandonada, sou um documento com foto e um desânimo caminha ao meu lado. Buscamos solitária e desmotivadamente um menos pior entre os iguais que se apresentam. São seres de um cemitério de idéias mortas, silenciados pela homogeneidade de um discurso igual, sempre igual, que brota de nossas telas coloridas com seus sorrisos falsos e suas mentiras sempre verdadeiras.

O primeiro turno se encerra em um domingo amorfo, os bares abertos, não se vê polícia na cidade. Um povo amansado já não discute badernas. O lanche de domingo se dá em silêncio. Na TV os resultados revelados tão velozmente que já o sabíamos antes do voto. Voto errado. O número errado me dá talvez a sobrevida que preciso para escapar do colégio cemitério em que me encontro. Os espelhos revelam sempre o mesmo rosto da cidade adormecida. Meus livros me trazem a realidade. Minhas revoluções então se estabelecem até que debruçado e cansado, adormeço. Sonho a praça cheia que não há. As ruas são suas verdades amordaçadas e cobertas por tapumes de plástico. Sonho as discussões vermelhas e seus corações em luta. Acordo segunda, sem comentários, os jornais repetem os rostos transparentes. Rumo ao trabalho, meu carro luz pela cidade e suas misérias permanentes. As várias estações repetem-me as transparências dos rostos idênticos. A universidade calada finge que nada acontece enquanto nada deveras acontece. Somos a espera do segundo turno e seus debates acalorados. Eles não vêm. Somos a espera das discussões inexistentes, das idéias nunca, de um Brasil desesperado. Nada se espera. Nada acontece e nos perguntamos até quando?

As semanas passam e os números são a curiosidade dos números. Mais nos importamos com a precisão das estatísticas do que com os destinos que se bifurcam. Os destinos, já sabemos há muito, não mais se bifurcam por aqui. Os cemitérios tomam conta da cidade, as balas voam e os destinos se amedrontam, deuses existem e inexistem sem modificar os acontecimentos. As vozes se calam, ouço murmurinhos pelos corredores, são grupos de interesse, apolíticos, concorrendo a editais e patrocínios. Imperceptíveis, se reúnem nas necrópoles universitárias, de onde assinam listas vazias, com suas tintas invisíveis e suas idéias nenhumas. Nada acontece e nos perguntamos até quando?

Domingo, os mortos nos esperam pacientemente na terça feira. Estaremos mortos perfilados, diante da urna eletrônica, infalível artefato de verdades e costumes. Confirmo, número errado outra vez. Irresponsável!, gritam-me no silêncio do mundo, seus robôs desesperados. Não percebes, dizem, as diferenças entre as texturas do nada, não vês o muro do cemitério. Sobe, ordenam, mas não escuto voz alguma. A cidade vive seu mais intenso racionamento de idéias. O presidente está sendo escolhido, mas não se percebe movimentos. À noite os resultados gritarão seus números e as discussões sobre as estatísticas das previsões se repetirão. Os números repetem seus desânimos. Dormiremos cedo, pois os mortos ainda nos esperam para terça feira. Os bares abertos vazios pela ausência do futebol. Nada acontece e nos perguntamos até quando?

Um clarão ao longe se revela intenso. Serei eu, inconformado com meus delírios revolucionários? Não, estou calmo, amordaçado em meu carro blindado, cortando a cidade com seus reflexos no asfalto que a chuva fina molha. Um clarão ao longe de fato se avizinha. Ninguém o vê, ninguém mais acredita. Uma bomba ecoa pelos horizontes. Permaneceremos os mesmos? Abro-me atento aos ruídos da memória, nada acontece. Sou eu e meus delírios que vislumbram esse clarão imenso. Fecho meus olhos, o brilho intenso permanece. Há muito tempo detonada, é a bomba atônita que se alastra pela cidade adormecida.





*Ricardo Kubrusly

Poeta, Matemático, Professor da UFRJ