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quinta-feira, 8 de abril de 2010

As chuvas, o proletariado e a responsabilidade de Lula, Cabral e Paes na tragédia do Rio de Janeiro

No início da noite de segunda-feira, 5 de abril, várias cidades do Estado do Rio de Janeiro sofreram com as intensas chuvas. Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e outras cidades pararam por conta dos estragos produzidos por tanta água. Os mortos confirmados já são quase duzentos, até o momento. Outras centenas ou milhares - este número é ainda mais impreciso - estão desabrigados.


Neste momento, é necessário apontar os responsáveis por tamanha tragédia. A imensa maioria dos que mais sofreram com o temporal é a parte dos mais pobres trabalhadores que moram nas favelas, mais especificamente nos locais que apresentam riscos de desabamento. O que sabemos é: moram nestes locais porque são a parte mais proletarizada da população, porque compõem o setor da classe trabalhadora mais afetado pelo desemprego e pela super-exploração do trabalho, porque seus salários não permitem mais que estabelecer a moradia em local tão arriscado! Jamais porque são “loucos, irresponsáveis e suicidas”, como afirma o governador do Estado do RJ, Sergio Cabral/PMDB, de forma absolutamente desumana e descompromissada com as condições de vida da classe trabalhadora.


O prefeito Eduardo Paes/PMDB preferiu culpar a natureza e sua tremenda força, eximindo-se de toda a responsabilidade – assim como é responsabilidade de Cabral e Lula – com a realização de políticas públicas que atendam aos interesses de moradia mais imediatos desses trabalhadores, como contenção de encostas, urbanização de favelas, sistema de drenagem etc. Fica nítido o descaso dos governantes ao revelar a contenção de investimentos públicos, que acarreta a precarização de áreas como a Defesa Civil. As autoridades solicitam à população para não telefonar para a Defesa Civil em caso de situação que não tenha "tanta emergência.

O presidente Lula/PT seguiu a linha já traçada por seus grandes aliados no Rio de Janeiro. Concordando com Cabral, disse que se analisarmos “todas as enchentes brasileiras, elas atingem sempre as pessoas pobres, que moram em locais inadequados". Confirma, portanto, a tese de culpabilização das vítimas. Diz que “o mais importante nessa história é que precisamos conscientizar a população para que deixe as áreas de risco”, ou seja, que abandonem suas casas e tudo aquilo que conseguiram conquistar com seu duro trabalho, sem qualquer garantia de que estará tudo lá quando retornarem.


Lula diz ainda que as chuvas não preocupam seus interesses nos eventos de 2014 e 2016, pois “não chove todo dia, quando acontece uma desgraça, acontece; normalmente, os meses de junho e julho são mais tranqüilos”. Portanto, contanto que em junho e julho de 2014 e 2016, a cidade esteja preparada para receber a Copa e a Olimpíada, não importa o sofrimento da população nos outros dias. Até mesmo o falso argumento do “legado dos grandes eventos esportivos” utilizado pelos governantes e pelo grande capital para justificar a importância desses eventos na vida do proletariado – que não usufruirá de seu verniz – cai por terra de vez. Tudo estará funcionando em junho e julho de 2014/2016, com todos os bilhões que serão transferidos pelo Estado (governos federal, estadual e municipal) à burguesia nacional e internacional, nessa relação íntima entre governos e capital que inclui, por exemplo, o financiamento das campanhas eleitorais de PT e PSDB, os partidos brasileiros que mantêm a força da ordem burguesa no país atualmente.


Lula, Cabral e Paes são os verdadeiros culpados pela amplitude dos desastres, assim como os governos anteriores que serviram aos interesses burgueses e corruptos. Nada fizeram para melhorar estruturalmente as condições de vida e moradia do proletariado que vive em áreas que ameaçam sua própria sobrevivência e ainda culpam os mortos pela tragédia ocorrida.


É muito importante perceber os projetos sociais que estão em luta: de um lado, o projeto dos capitalistas e dos governos burgueses, que desejam expulsar os favelados de seu local de moradia, motivados por diversos interesses, como a expansão imobiliária nessas regiões (a que se relaciona a imagem da favela criminalizada e de fato alvo da violência policial, do tráfico e de milícias); de outro lado, o projeto do proletariado, que de imediato exige a melhoria de suas condições de vida e moradia, mas tem como objetivo final aquilo que possibilitará o fim das condições sociais que generalizam todas estas tragédias: o fim das condições sociais que causam sua miséria.


Fundamentalmente, são estas condições sociais (que fazem com que o proletariado recorra à moradia nos locais de risco) que precisam ser combatidas. Este é o horizonte necessário que não pode sair de vista de todos aqueles que sentem profundamente as perdas humanas e sociais e lamentam diante das terríveis reações dos governantes burgueses. O objetivo final de nossa luta, para além da necessária melhoria imediata das condições de vida dos trabalhadores que habitam as regiões mais precárias, precisa ser o fim da sociedade de classes!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Shortinho verde amarelo

O Coletivo Marxista se orgulha em publicar a poesia/texto "Shortinho Verde Amarelo", de autoria do poeta, matemático e professor da UFRJ, Ricardo Kubrusly, nosso colaborador e irmão em tantas lutas e enfrentamentos.

O texto dispensa apresentação. Certamente calará fundo no coração de todos os revolucionários espalhados por terras brasileiras e latino-americanas. O uso do esporte para exaltação do nacionalismo e formação de uma "consciência cidadã", que retira de pauta a luta de classe e "irmana" burgueses e proletários, é uma forma clássica de dominação. É a velha, e sempre eficiente alternativa de apaziguamento da luta de classe com tantos exemplos dramáticos na história.





Shortinho Verde Amarelo*

é


fogo nos pneus, cacete nas pernas
com seus shortinhos verde amarelos
girando feliz pelas praias da cidade.

Cuidado
VC. já foi filmado
sorria Q amanhã a coisa pega
é
fogo nos pneus, cacete nas pernas
que o subúrbio não grita assim dessa maneira

Ver a fumaça preta subindo pelo cristo de cimento
e as peles misturadas ao sangue
vermelho
sempre
futuro vermelho sempre
que há de varrer essa aquarela desbotada
essa alegria encomendada
esse sorriso estrangeiro


ao acordares, meu amor
verás pelas janelas da cidade
um sonho ensanguentado de felicidade
uma esperança nua, uma palavra igual
ao acordares
sugiro
fogo nos pneus, cacete nas pernas

Ali no aperto da praça, o Brasil se enfeitava para a fotografia, afinal depois da copa de 14 virão as olímpicas de 16 e assim adiaremos qualquer reflexão possível sobre as verdadeiras condições em que vivemos por mais 20 anos. Nós, opressores e seus sonhos metropolitanos rasgando implacável a terra empobrecida e nós, oprimidos, sonhando sonhos que nos são impostos. Sorríamos, estamos prontos o futuro, esse futuro passado que nos alcança por mais que dele tentemos nos desvencilhar...


Ali no aperto da praça, shortinho rebolando poucas e bocas, nas horas nas fumaças, que mais uma festa se faça, sem sonhos, também pudera, viver apenas a farsa da alegria desaproveitada. Somos um país triste, que às vezes se veste alegre, mas é triste, sonhando acordado de zona sul e calote seu destino acanhado e sem delicadezas. Samba o teu shortinho apertado e colorido que nessa praça o trem que não atrasa mata, como as escolas matam, e as avenidas matam. Samba o discurso da copa que o anão de bola é campeão no venceremos e samba nas américas, teu rebolado gringo, esquecido da história e suas lutas.


As olímpicas serão, como a fome nos sinais, à prova de balas. Serão nossas a miséria e a barbárie. O Rio no photoshop, lindo, com suas águas tranqüilas e transparentes, seus verdes, seus amarelos, luzindo, luzindo. O Rio botox nos morros, incêndio nas favelas.


No pensamento siliconado de nossas academias seremos finalistas nas torturas, campeões nos acidentes e nas mentiras, mas continuaremos como se fôssemos eles, enrolando palavras e inventando dizeres, falando como crianças imitando língua estrangeira. Sempre o mesmo sopro colonizado que nos acalentou os séculos. Até quando? Até quando sonharemos apenas esse sonho estrangeiro?

Será mesmo que para ser um bom brasileiro temos de querer a copa de 14 e as olímpicas de 16? Não poderíamos, por exemplo, querer as lutas de 17? Por que não fazer a próxima revolução aqui, em São Paulo, ou mesmo em Belô? ... e vê-la se alastrando pelas américas como sonhou Guevara e nós, com ele. Seríamos menos brasileiros se balançássemos nossos corpos por uma verdadeira vitória conquistada? O que queremos fazer de nossos dias? O que podemos fazer em nossos dias? Se só nos resta sonhar, que se sonhe lutando em plena revolução futura, dançando a vitória coletiva e acreditando num país solidário onde as idéias governem os acontecimentos.


É certo que a vida nos confunde. Como extrair verdades de um mundo que premia com a paz, repetidamente, os senhores das guerras? A quem querem enganar? A nós, a todos nós e é triste ver como se saem bem, como acreditamos no esquecimento, como acreditamos na nossa própria morte como solução das misérias do nosso mundo. O que fazer com essa indignação cansada que vivemos hoje, se não podendo viver comigo também não posso viver sim mim?

é...

fogo nos pneus, cacete nas pernas

*Ricardo Kubrusly

Poeta, Matemático, Professor da UFRJ